Esquece Monelos: aquelas duas luzes no final do túnel

<cite>Esquece Monelos</cite>: aquelas duas luzes no final do túnel

A primeira vez que concebim a possibilidade de matarem um rio foi -como nom- lendo um álbum de BD. "Brüsel", do mítico ciclo das "Cidades Escuras" de Schuiten e Peeters. Até esse momento nem se me passara pola cabeça tamanha aberraçom. Teria imaginado o hipotético: hai um rio? A cidade crescerá em todo caso arredor del, en todo caso aos seus lados... nunca por riba del. O rio é vida. Nom o esmagas, verdade? Mentira. O choque que me produziu "Brüsel" nisso permaneceria para sempre comigo.

Anos depois moraria na rua do rio de Monelos e passando polo baixinho arco da sua ponte de pedra contariam-me que sob os nossos pés ia aquel rio exilado ao subsolo, caladinho, castigado por nom se sabe bem que falta. Um curso fluvial cuja existência eu nem conhecia de menino, e que fum descobrindo segundo se começavam a partilhar por Internet fotos antigas da cidade e os seus contornos.

<cite>Esquece Monelos</cite>: aquelas duas luzes no final do túnel

"Esquece Monelos" é a história desse rio da cidade da Corunha, dum dos rios destruídos em boa medida polo maldito "desarrollismo" dos 60 (dirá-se-me que me aferro ao romanticismo dum passado inexistente, que o rio causava muitos problemas e que encaná-lo e enterrá-lo era necessário; escusam fazê-lo).

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Com umha claridade asinha posta sobre a mesa e o ponto justo de poesia e de olhada contemplativa, o que nos propom a diretora Ángeles Huerta nesta película é um caminharem colhidas da mão duas histórias: a primeira, a do próprio rio, desde o seu surgimento polo alto da Furoca -lugarinho que via de longe passando todas as manhãs durante a metade da minha infância- até chegar a água doce a se fundir coa salgada do mar. Entre ambos extremos, entre nascimento e morte, um feixe de vidas e lembranças.

A segunda história e a própria de quem supomos o pai da diretora, personagem quase elíptico porém essencial como motor do relato, enfrentado ao mal do alzheimer. A elegância coa que ambos fios, o do rio e o do senhor, se entrelaçam na tela do cinema há de dever muito à boa mão e bom olho na montagem de Sandra Sánchez, experimentada realizadora ela tamém. Nom quero deixar sem destacar tampouco a sobriedade e acerto do diretor de fotografia -Jaime Pérez- e a excelente companhia musical em toda a viagem -nom dou encontrado o crédito-.

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A partir das duas linhas do conto obviamente hai umha sucessom previsível, mas mui lograda, de símiles, e por descontado poderosas metáforas, boa parte inerentemente vinculadas à memória e à perda desta, tanto a involuntária como a voluntária (que estragamos para o "progresso"? Vale a pena?).

Que umha história tam profundamente corunhesa seja narrada com tal classe, graça, emoçom (as velhas vizinhas de Monelos coas bagulhas ao lembrarem quando lhes guindárom as casas), pluralidade de perspetivas (as famílias ciganas expulsadas da Covela, o alcaide do tardofranquismo, o técnico-braço executor do projeto sem remordimento nengum, etc) e enfim, em conjunto com tal savoir faire cinematográfico-documental produze-me umha enorme alegria.

Porque esta é umha história com muita fealdade nela (a doença, a destruiçom natural, a ruína, o cimento, esses horríveis labirintos de scalextric que medram como um cáncer a partir da Avenida de Glasgow, que isolárom Sam Cristóvão das Vinhas, e que invadem tudo desde Meicende até Mesoiro) mas que apesar de tudo dá construído, a partir dos seus dous farois -o familiar/humano e o comunitário/natural-, um lindo monumento ao recordo, umha homenagem aos trabalhinos de quem nos antecedeu e a necessária e tam demorada recuperaçom dumha parte da nossa cidade, que nos roubaram sem pedir permissom.

E porque, como reza o lema do filme, "o que nom se di non fai parte da história".

E felizmente, aqui já se di, e di-se com tacto e beleza.

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