E se o Depor quixesse alinhar a Verónica Boquete?

O futebol jogado por mulheres nom dá dinheiro porque nom se inviste nel é umha obviedade e gostaria que fóssemos um bocadinho mais adiante que umha premisa tam simples. Sobretudo porque qualquer cousa na que se invista escassamente é provável em geral que dê pouco dinheiro e atraia pouco interesse. Mas se falamos de desportos, e mais precisamente de desporto profissional, essa regra de ouro se pode aplicar a qualquer disciplina: por exemplo eu podo afirmar que as traínhas nom dam dinheiro porque nom se inviste nelas o que se deveria. O que é mais, nom é só questom de investimento de dinheiro senom tamém de investimento monetário indireto (ou direto em outras cousas, como o tempo de cobertura informativa e o apoio simbólico por parte dos poderes públicos): quero dizer que se jogos desconhecidos para o gram público fossem devidamente promocionados polos canais televisivos -já nom digo mais, mas polo menos os públicos- o seguimento deles cresceria. Neste sentido, temos um caso de atençom nos desportos tradicionais em Euskadi.

Eu estimo os desportos e especialmente o futebol, mas hai dous rasgos cos que nunca acabarei de estar de acordo. Primeiro, a excessiva mercantilizaçom derivada da loucura económica que rege os grandes jogos (subscrevo o lema Odio eterno ó fútbol moderno que lhe vim luzir aos Riazor Blues), e com ela, a máfia do traspasso de jogadores, das apostas ilegais, dos amanhos, do amparo das grandes esquadras em detrimento das pequenas, da ludopatia derivada das apostas legais em Internet, e mil cousas mais. Segundo, a separaçom por sexos, como se na vida homens e mulheres nom pudéssemos fazer o que for juntos e mesturados. Que é isso de que, se umha equipa de primeira divisom quer alinhar umha mulher nom o poda fazer por proibiçom expressa? Que classe de estupidezes assumimos como normais nesta altura do século XXI? Porque a segregaçom por gêneros é umha herdança cultural rância a extinguir, e os desportos -mais, outra vez sim, os profissionais- modelos de conduta para a sociedade à que se limitam a entreter (outro dia se quereis falamos do panem et circenses). Como consequência, o uso que se fixer dos jogos públicos responde à filosofia material (o físico das persoas, a sua saúde, a prática de exercício, etc) e imaterial (a conduta particular, o comportamento social) que com eles se queira promover... e aí colhem verdadeiros antagônicos.

Abstenho-me de entrar no argumento (falaz?) que nos gravárom a fogo desde a infância de que os homens som mais fortes que as mulheres e em qualquer jogo misto as equipas escolheriam sempre os primeiros, ou que num jogo de tenis a nº1 do mundo nunca poderá bater ao nº1 do mundo. O feito é que existe discriminaçom por sexo no desporto e, em particular, no futebol profissional e amador, como descreve J. Oriol da Faculdade de Direito da U. Pompeu Fabra. Assim que me centro no que me parece fundamental: que nom se pode fazer, que está proibido (WTF), independentemente do nível de acerto que os machistas aprioristas fixarem para segundo quais disciplinas... O que me importa e me molesta é esse recorrente fenômeno cavernário polo qual a umha menina ou a umha moça se lhe proibe jogar coa sua própria equipa, algo inaudito que só um ente saído das tebras dos tempos, neste caso a Real Federación Española de Fútbol, poderia concebir como justo e ajeitado. Claro que, que vamos aguardar de um país em que o dinheiro público sostém a educaçom privada em geral, e a educaçom privada segregadora por gêneros, em particular.

Entom sim, aqui investe-se pouco em futebol feminino e assim um talento de escala internacional como a compostelã Verónica Boquete acaba trunfando em equipas dos EUA, Rússia ou Suécia, quando paradoxalmente de miúda nem sabia da existência de competições de alto nível para mulheres (lógico ignorá-lo! quando se viu tal cousa na TV?).

O panorama é tal que nem conhecemos a nossa própria história, a história das nossas mulheres: na cidade da Corunha, na década dos 20 do s. XX houvo umha porteira mui popular que jogava em equipas masculinas, chamava-se Irene e chegou a dar nome à sua própria esquadra. E quantos sabemos que a primeira liga que ganhou o Depor... foi a feminina? O Karbo Deportivo estava considerado nos primeiros oitenta a melhor equipa a escala estatal.

E se o Depor quixesse alinhar a Verónica Boquete?

Hoje em dia existe a competiçom para senhoras, co seu próprio Barça ou Athletic, mas no relativo a meter-se em assuntos de homens atualmente nom se chega ao caso da porteira Irene de hai cem anos: apenas hai mulheres no rol de juiza (caso de Amy Fearn) em jogos de homens ou de treinadora (a experimentada Helena Costa anunciara-se tamém para esquadra masculina em França, mas ela renunciou). E apesar de o jogo em si estar aínda vetado, o sexismo continua ensinando o dente, quer por comentários contra mulheres em rol de árbitro (caso da inglesa Sian Massey) quer no de fisioterapeuta (a gibraltarina Eva Carneiro empregada no Chelsea).

Apesar de tudo, as mulheres querem jogar ao futebol, nom em vam de 1994 a 2008 em Galiza passou-se de seis a quarenta e umha equipas. Embora a finais dos 90 se anunciar a legalizaçom do futebol misto -unicamente nas competições organizadas pola federaçom autonômica- os jogos juntos parecem na prática relegados a convocatórias nom oficiais, como a que honrou a seleçom nacional de Galiza fronte ao Sahara hai um par de anos, incidentalmente coa própria Vero Boquete como convidada estrela. No plano cotiám, mesmo no hipotético caso de que, apesar das facilidades legais, as mulheres preferissem jogar com mulheres e nom com homens, tamém estaríamos, na minha forma de ver, diante de um problema cultural a superar.

E se o Depor quixesse alinhar a Verónica Boquete?

E nom, nom pensemos que o problema da segregaçom é único do Association Football, porque a autoridade do gaélico diz-se-que o de homens e mulheres juntos o havia que ver (consulte-se fútbol gaélico en Galicia e Peil Abú)... só resta dizer que viva a Liga Gallaecia ^__^

(E nom, nom pensemos que o machismo só existe nos jogos físicos: nos desportos eletrónicos tamém campa a discriminaçom, a violência verbal e a segregaçom por sexos)