As bisbarras galegas

Obviadas no itinerário educativo como entendo que o som no âmbito político, as bisbarras parecem-me o elemento geográfico essencial na estruturaçom do nosso país. Por muito que nom se estudassem bem na escola e se ignorem na prática -derivando determinados papeis quer para o nível superior (provincial), quer para o inferior (municipal)- dá-me a sensaçom de que as comarcas recolhem as verdadeiras partes orgánicas de Galiza; nom só na contiguidade natural, senom tamém nas relações sociais, económicas... mas @s expert@s dirám.

Em termos legais o artigo 40 do Estatuto de Autonomia dizia que se poderá (sic, que já é triste) reconhecer a comarca como entidade local com personalidade jurídica e demarcaçom própria. A partir daí a Lei 7/1996, o Decreto 65/1997, etc. Porém por muito que se recolham nominalmente no ordenamento jurídico provavelmente nunca as tenhamos percebido de jeito concreto e afinal parece que estamos organizados em províncias (essa sim que a vejo como umha estrutura alheia, e mais sendo 4 e nom 7) e daí para baixo diretamente em concelhos.

Tal parece a desconsideraçom oficial para as comarcas dos que mandam que se fusionam dous municípios (Cotobade e Cerdedo), pertencentes a duas bisbarras distintas, e no decreto (134/2016) que lhe dá forma legal a essa uniom nem sequer se molestam em dizer a qual das duas comarcas pertencerá o concelho resultante. Explico-o mais de vagar aqui.

É possível que tradicionalmente houvesse percepções intuitivas no povo galego de quais eram as comarcas e qual espaço geográfico abrangia cada umha, e com certeza eram percebidas e se correspondiam à vida e trabalho da nossa gente em cada regiom galega. Mas à hora de fixar límites ou fronteiras afinal hai sempre necessariamente um certo grau de arbitrariedade. Aqui vamos ver várias formas de interpretar a vertebraçom do nosso território.

A Junta de Galiza optou originalmente por umha disposiçom que é a que segue, com um total de meio cento de comarcas:





Curiosamente tam ou mais conhecida que essa organizaçom legal é a sugerida pola organizaçom Nós-UP a primeiros da década dos 2000, umha disposiçom que, por nom se cinguir ao espaço oficialmente concedido à Comunidade Autónoma de Galicia provocou protestos da parte espanhola. Promotores alegárom pretender "ultrapassar a visom quadriprovincial espanhola que hoje constitui" a C.A.G. considerando as partes hoje administradas por Astúrias ou Castela "territórios tradicional, cultural e lingüisticamente galegos". Anedota adicional foi que inadvertidamente esse mapa fosse tamém utilizado polos opostos ideológicos num vídeo publicitário.

O que se vê a seguir é essencialmente aquela disposiçom, ainda que variaram um pouco algumhas demarcações municipais e, principalmente, leva o milenário topónimo de Nemancos em vez desse invento do s. XX e tam fixado popularmente como é "A Costa da Morte". Assim como o primeiro mapa tem a toponímia oficial este outro leva-a em grafia reintegrada seguindo maiormente o "Manual galego de língua e estilo" (2ª ed., 2010). Eis o segundo mapa:





Além de disquisições políticas e debates entre umha fórmula e outra, reflete a ignorância das comarcas e da própria territorialidade o feito de que se podam redigir artigos jornalísticos sem nem sequer mencionar a certa existência dumha Galiza estremeira e já isso deveria dar que pensar sobre o conhecimento que temos da nossa própria história, da organizaçom "natural" do nosso país e da proximidade cultural, lingüística e mesmo afetiva com terras que se dim atualmente nom galegas.

Incidentalmente em 2017 a Associaçom Galega da Língua (AGAL) compilou umha lista cos nomes galegos de concelhos que para a minha ideia omite 31 municípios da Galiza estremeira, comete um erro (Vila de Cães nom é concelho) e deixa-me com um par de dúvidas toponímicas. Debulho aqui.
A Aguieira, o Barril, a Pedra dos Corvos, a Pedra da Garça, o Carreiro, as Caldeiras, o Com, a Javinha, a Portuguesa, a Sobérbia, as Cruzes, o Malhom, o Salto da Barca, a Gruta do Amor, o Altar de Sam Pedro, o Altar de Sam Roque, a Sala do Perelho, a Pedra do Apóstolo, a Pele, o Baixo do Coído, o Bolo de Tarrám, a Langosteira, o Canhom, as Pedras Altas, os Novos, Rio Escuro, Agra Mar, o Cachelvo, o Brolo, as Escaleiras, a Pedra das Redes, as Lajes Mouras, a Pedra da Pia, o Lago das Vacas, as Crebantes, os Cornos, o Farelinho, o Gato Pelado, a Busarana, o Cercado, a Percebosa, a Olhomoleira, a Sambada, o Gorriom, a Medina, a Campã, Salzano, Cozinhadoiro, Sualva...
Navegara co pai no lugar "das Baleas". A escola falava 1 idioma: o cetáceo chama-se ballena. Só de maior se deu conta.

Os moinhos da Corunha segundo o Catastro de Ensenada (1752)

(...) un Molino Arinero del Biento sin uso (...)
(...) Las Azeñas del Puente Gaiteiro, o dela Palloza con nuebe Ruedas arineras de todo grano pertenecientes à Don Miguel Jazpe, y mas consortes, las que muelen doze dias del mes con el agua que sube delas Mareas, y encada uno catorze oras, y dan por Arrendamiento en cadaun año ducientos ochentayocho ferrados de trigo, setentaydos de Maiz, y otros setenta y dos de centeno =
Dos Molinos de Agua dulze con una Rueda cadauno, en el Lugar dos Moiños pertenecientes eluno a don Juan Antonio de españa, vezino desta ciudad, y el otro a dn. Joseph Pangou, vezino dela de Betanzos que muelen la quarta parte del año, y en cada dia y noche de este tiempo ocho ferrados de todo grano (...)


(A transcriçom do manuscrito é minha e quaisquer erros nela tamém)

Margens da Corunha segundo o Catastro de Ensenada (1752)

(...) Linda por L. [Leste] con el Rio y Puente llamada Gaiteiro que la devide con la feligresia de Santa Maria de Oza, por el Sur, con Feligresia de San Christoval das Viñas, y por el P. [Poniente] con la de San Pedro de Bismas, contando su termino desde el expresado Puente por el Rio arriva, asta el lugar de Monelos, y desde este à Parromeira, y desde alli alos lugares de Nelle, y Bioño, por la agra de Bragua, parte arriva de la hermita de Santa Margarita, y descendiendo desde esta sigue hasta el Rio que baja de San Pedro, y termina en el Lugar dos Moiños, y por el N. [Norte] con la thorre, y pradeyra de ercoles siendo como es Peninsula por estar porlas mas partes circundada de Mar como lo demuestra sufigura.


(A transcriçom do manuscrito é minha e quaisquer erros nela tamém)

Mapa de Pedro Teixeira, 1634

Mapa de Pedro Teixeira, 1634
CURUÑA, Castillo de S.Antº, Pescadaria, Funt?, S.Amaro, Torre dercules

Mapa de Pedro Teixeira, 1634
Molino, Fuerte de S.Cruz, S. Maria de Oça

Mapa de Pedro Teixeira, 1634
Lamarola (esquerda, embaixo) e MAR DE ORÇAN (centro, à direita)

Hispanicae Regionis Nova Descriptio

Agradeço a quem me interpretou a caixa de texto a pé deste mapa encabeçado como umha "nova descriçom da regiom hispánica".

Hispanicae Regionis Nova Descriptio

Dacordo coa Wikipédia o original da Cosmographia seria em alemão ("earliest German-language description of the world"). Segundo isto, o que se reproduze infra seria umha segunda traduçom (sempre assumindo a premisa de que o mapa supra faga parte da dita Cosmographia). Porém, se entendo bem, da Biblioteca Nacional de Espanha colige-se que o original foi o latim e daí se traduziu para alemão ("La Cosmographia de Ptolomeo, editada por Sebastian Münster en 1544 en Basilea, tuvo numerosas reediciones, traduciéndose a otros idiomas como el (...) alemán"). For como for, eis a descriçom textual que acompanha a cartográfica:

As montanhas dos Pirinéus separam a Hispánia da Gália. E lá dous braços de montanhas emergem sobre esta regiom, um dos quais se estende até Portugal, separando-o da Galiza; e os nomes comuns som variados, postos à toa a partir das pessoas que lá moram. Os nomes dos rios, assim como das cidades, quase todos mudaram atualmente. Betis é agora chamado Guadalquivir; o Ana, Guadiana; o Tago, Tejo; o promontório céltico, Finisterra; o Íbero, Ebro; a Valéria, Concha; Calagurrio, Calahorra; de tal tipo de nomes se dirá que som mais abundantes na Hispánia do sul.


Toponímia galega: S. Martha, Cologna, Bizarga, Finis terrae, Cormes, S. Maria, Noia, S. Iacobus Compostelle, Galicia, Baiona.

Quando Corunha foi portuguesa

Quando Corunha foi portuguesa

Ontem fixo-se um ano da publicaçom deste artigo de Xosé Alfeirán, em que contava como durante quatro anos do século XIV, Corunha foi fiel ao rei Fernando I, em ocasiões referido, além de como rei de Portugal e dos Algarves, tamém como rei de Galiza. Segundo o relato o monarca foi recebido polos vizinhos da vila -ao inquérito "Hu vem aqui meu senhor el-Rei Dom Fernando?"-. Encabeçava-os o regidor Joám Fernandes de Andeiro, um nobre galego natural da parte de Cambre, que se vinculou ao reino luso. Hoje Alfeirán apresenta um novedoso e extenso trabalho sobre a Torre de Hércules atravês da história, centrado no período que vai do s. XI ao XVII.

No momento de escrever estas linhas páginas em galego e espanhol da Wikipedia dim literalmente -e de jeito equívoco, suspeito- que Fernando se "coroou" na Corunha. À sua chegada o rei mantivo en uso a Real Casa da Moeda da Corunha, acunhando moeda co símbolo por antonomasia da cidade, o faro romano. A página "Monedas gallegas" explica que entre os tipos de moeda acunhada se contam dous, chamados "de escudo" por apresentarem o português no anverso. Nun caso, flanqueado por duas estrelinhas, e sobre o mesmo aparece a Torre de Hércules entre aspas; noutro, mantém-se a Torre, mais os demais adornos som substituidos.

Para saber mais da numismática luso-corunhesa:

  • "Moedas da Corunha (carta a propósito das 'raridades numismáticas' do Dr. Batalha Reis" (Luís Pinto Garcia, 1949)

  • "A Torre de Hércules e as emissões monetárias de D. Fernando I de Portugal na Corunha" (Rui M. S. Centeno, 2016). Deste último procede a imagem supra, co pé de imagem "NUMISMA LEILÕES. Colecção Algarve - Parte II (Lote 65). Colecção Joaquim Fontes Pacheco"

  • Podemos ler os feitos referidos no seguinte relato do Chronicon Conimbricense medieval, tal como o dá España sagrada. Theatro geographico-historico de la iglesia de España (2a ed.) / . Tomo XXIII. Continuacion de las memorias de la santa iglesia de Tuy y collecion de los chronicones pequenos publicados, é ineditos, de la historia de Espana... (1799) de Enrique Flórez, recolhido pola sua vez na Gallica, a biblioteca dixital da Biblioteca Nacional de França [consulta 27-11-2017]:

    (...) el Rey D. Pedro de Portugal foise à Galizia è tomou Tuy, è Ourem, è Salvaterra, è Redondela, è Bayona , è à Chrunha, è outros Lugares muytos em Galiza, è fez bater sua moeda de prata , è douro, è na Crunha , è em Tuy , para pagar ò soldo aos que ò serviaõ , è nesto comeyos Fernaõ Dafonso da Camara , è Joaõ Affonso desse logo cada hum sobre si lhe vierom fazer vassallagem , è deram ahy à Cidade de Camera, è ganhou em esse anno Saõ Felices , è Valenza , è Alcantara , è outros muytos Lugares em Castella , è quando ò Anrique soube como ò ditto Rey D. Fernando era en Galiza, juntou suas gentes , è foise à Santiago de Galiza , è el Rey Dom Fernando era ja em Portugal , è veose entom ò Anrique à Tuy , è cercou-o , è tomou-o , è passou ò Minho , è veose lanzar sobre Braga, è tomou-a, è foise entom caminho de Braganza , è foi-a cercar , è filhou-a , (...)
In comisso de faro ecclesia sce. marie in conduzo. sca. eulalia in carolio. scm. petrum in letaonio. scm. tirsum in oseyro.

Tomo II de Historia de la Santa A. M. Iglesia de Santiago de Compostela (1899) de Antonio López Ferreiro