Antes de se fixarem determinadas ideias no imaginário coletivo sobre o galego na BD na década anterior comparado com a que vivemos agora, sem nem sequer haver uma réplica, eis a minha. Com todo o respeito para a gente que tem opinado, a quem não vou responder em redes sociais para começar um debate que não me apetece, a minha forma de ver o assunto é radicalmente distinta -e em determinados pontos oposta- e deixo-a por escrito para que conste. Não quero interpretar certas declarações como interesses particulares de presença e de discurso e prefiro apresentar a minha opinião pessoal e individual aqui.

Tem-se usado como argumento que Polaqia publicava em galego e agora não se publica, isto é só meia verdade. Algumas das BDs galegas mais destacadas dos últimos anos têm sido editadas em galego, como ∞-1 de Xulia Pisón, co-editada pela autora com a cadeia de livrarias Alita Comics, ou a sobressaliente A carreta do diaño, obra de Fernando Llorente, cuja segunda publicação foi em galego ao amparo da Deputación da Coruña com ocasião de ganhar o concurso Castelao promovido por aquela entidade provincial.

Vejamos pois que há em jogo fatores propiciadores que som: a própria parte autoral, apoio de negócios, apoio de instituições. Exatamente os mesmos que na época de Polaqia.

Alguém se molestou em contar quantos títulos de Polaqia foram em galego? Porque a mim me saem quatro de quarenta, grosso modo; o dez por cento.

Não é que então os autores estivessem especialmente comprometidos com o galego de um jeito que agora não estão. Simplesmente há muitos autores que quando apresentados com a possibilidade de serem editados de modo não especialmente lucrativo -ou diretamente sem cobrarem- em língua galega, o tolera(va)m. Porém isso não implica o mesmo grau de compromisso que terem tomado eles/elas ativamente a iniciativa de se auto-editar em galego -algo que também passava então e também passa agora-.

Se tomamos Polaqia como exemplo e não como bandeira só uma parte pequena do seu catálogo, fora da publicação seriada Barsowia, saiu na nossa língua. E os títulos em questão deveram-se principalmente a que a parte criativa se tinha desenvolvido sob convocatórias como as 24 horas da BD ou o próprio concurso Castelao e os autores responsáveis elegeram voluntariamente não traduzir o trabalho para espanhol antes de lhe dar saída auto-editorial.

Quanto ao Barsowia, principal veículo do coletivo e peso quase íntegro do galego no labor de publicação do mesmo, não imaginemos películas: Barsowia saiu por iniciativa pessoal minha e saiu em galego por iniciativa pessoal minha. Ponto. Para funcionar economicamente teve o apoio essencial de incontáveis negócios galegos (livrarias, bares, etc) e o trabalho de Hugo e Sergio Covelo. Sem esses dois fatores e sem a contribuição criativa voluntária dos numerosos autores e autoras Barsowia simplesmente não teria existido.

A reunião central em que se acordou a criação da cabeceira decorreu em Ponte Vedra com a presença dos quatro autores que estudavam lá na faculdade de Belas Artes (Diego Blanco, Bernal Prieto, Brais Rodríguez, Roque Romero) e os irmãos Covelo. Quando eu propus aquele dia editarmos um fanzine por imprensa e o editarmos integramente em galego a proposta foi respondida com incredulidade mas finalmente aceitou-se. Fim da história. Depois dirigi o Barsowia até o número nove. Teria dezasseis em total. Não há mais mistério. Não mitifiquemos nem concluamos mais do devido o que Barsowia representou.

A década anterior foi de iniciativas “micro” em galego e esta talvez igual; até pode que atualmente haja mais vias que havia então. A perda de presença do galego será, digo eu, um fenómeno global porque muita gente renuncia a o falar, a o escrever e a publicar nele. Não é específico da BD. Não idealizemos o passado para enfatizar o pouco que a favor do nosso idioma se faz atualmente. Pelo contrário, façamos mais agora: desde a autoria, desde os negócios privados e desde as instituições públicas. Exatamente igual que então.

Esta semana, incidentalmente, viu a luz o livro Ricardo Mella de Ramón e e Xosé Trigo e mais outra obra em galego, mínimo. Ler e comentar será o melhor jeito de apoiar a BD em galego, suponho.