Em 1988, Hugo Pratt dizia de Corto Maltese:

Acabou de tomar o elixir eterno na Suíça, assim que não morrerá nunca. Não sei o que estará a fazer agora, porque mantém certa independência. Quando apanho o lapis, Corto e eu temos que pôr-nos de acordo para ver o que fazemos.


Não podo matar um cavaleiro que me solucionou a vida.



Com todo o respeito que me mereça Blacksad -ou Fraternity-, na linha do material que é, não tenho nenhuma debilidade polos seus guiões, e assim naturalmente não posso evitar sentir as máximas reservas do que puder sair da continuação por parte de Juan Díaz Canales de uma obra como Corto Maltese, tão indisolúvel do sei pai. Acho que tem que haver muito… atrevimento é a palavra? para meter-se em algo assim. Pela sua parte Rubén Pellejero é um artista que estimo e admiro, especialmente em vários dos tándens que tem feito com Jorge Zentner.


Em geral não tenho clara onde está a linha que separa o que não me molesta que se trate como umha licença, um Spirou, um Spider-man, ou Donjon, Juiz Dredd, Blueberry, etc e o que pelo contrário não quereria ver prolongado. Especialmente desde o momento em que, tão longe o ofício e a lucidez do irrepetível Goscinny, nem o feito de Astérix sobreviver a Uderzo me zanga já. Então tem que ser algo puramente arbitrário e subjetivo. Algumas experiências de continuação, como o caso de Lucky Luke, têm tido resultados infames. Outras, como The Spirit, preferia nunca ter conhecido.


Provavelmente lerei o álbum sem prejuíços quando tiver ocasião mas a priori, que me desculpem, não posso ver um Corto sem Hugo Pratt igual que não posso assumir um Watchmen sem Alan Moore.


Em qualquer caso opino que há que respeitar a vontade do criador ou criadores, isso é o fundamental. Hergé disse que não? Pois isso. Se Pratt disse o mesmo, como se afirma aqui parece-me fatal que se continue. Se, au contraire, como se indica nestas outras referências, sim deixou essa porta aberta, adiante:



Contrairement à Hergé, le « Maestro » évoquait la continuation de son œuvre après sa mort. Et pour cela, il citait toujours comme ses successeurs possibles, Milo Manara ou Lele Vianello pour reprendre Corto Maltese.



@ ActuaBD



Hugo m'a souvent confié qu'il souhaitait voir Corto poursuivre ses aventures après sa mort



@ Le Figaro


Respeitar a vontade dos criadores num sentido ou no outro, disso se trata, e não é questom de lei, senom de princípios. O demais som estupidezes, como o que dizem os donos de Tintin (porque isso é o que são, donos; como podiam possuir um armazém de cadeiras) de que vam editar um novo álbum em 2052 para evitar que caia no domínio público. Que mais vos importa a vós? Para então estareis (estaremos) todos mortos, em quanto os personagens, se a nossa civilização pervive, continuarão vivendo, aínda que só seja nos livros que agora conhecemos e que fazem parte dos nossos clássicos, como é o caso dos álbumes de Corto Maltese de Hugo Pratt.