Estávamos trabalhando no layout de uma sequência, valorando se pela quantidade de diálogo pedia uma página ou duas. Então me perguntaram se uma linda prancha de Javier Pulido para “Jessica Jones”, vista estes dias nas redes sociais, não me resultava um bocadinho confusa. Não. E vou explicar por que.

Temos aprendido, consciente ou inconscientemente, que se a olhada percorrendo a linha branca que normalmente separa as vinhetas (gutter em inglês, calle em espanhol, etc) não bate em nenhum canto, seguimos. Se pelo contrário há um canto, uma esquina, cambiamos de fileira.

A ordem de leitura ocidental é esquerda-direita, de riba para baixo. Começamos no quadrinho primeiro, o superior à esquerda. Os cantos (círculos verdes) vão indicando-nos o primeiro curso:

Depois os indicados com círculos de outras cores:

A leitura faz-se então evidente:

Contudo, Pulido toma uma licença artística, faltando precisamente à norma antes descrita dos cantos como fitos na via da leitura visual. Eu diria que ele procura um efeito estético de contiguidade entre estes dois quadrinhos como feche da dupla página e do diálogo porque ambos pertencem ao mesmo protagonista, Nick Fury:

Porém há uma última linha que talvez passe desapercebida mas é essencial para a edição em papel. A que delimita a separação física das duas páginas, a que terás nas mãos à esquerda e à direita. E essa linha é importante que não passe por cima de balões de diálogo, de figuras, ou de caras “pequenas”.


Fantástico trabalho por parte de um artista genial!