O pronome átono em galego

A orde correta para o pronome átono a respeito do verbo na língua galega parece-che complicado ao primeiro, depois achas que entendestes, e a seguir, ao te enfrentares às exceções e casos infrequentes, voltas a pensar que nom sabes avondo.

Eu polo menos acho-a umha questom enormemente complexa. Por um lado dá muito trabalhinho, quer para aprender como neofalante, quer para racionalizar como paleofalante. Polo outro lado, dá-lhe ás falas galegas umha imensa riqueza.

Reconheçamos já de início, pois, que em galego podemos fazer cousas bem estranhas cos pronomes...!

Quen me dera saber lér,
prenda que tanto gostaba,
para saber lér as novas
que me o meu amor mandara!


Xaquín Lorenzo Cantigueiro popular da Limia Baixa (sublinhado meu)

Hai um par de anos, durante vários dias, umhas quantas persoas estivemos falando disso, a raiz dumha frase que me chamou a atençom quando a lim na imprensa -como exporei depois- e o primeiro que tenho que fazer é agradecer a todas as persoas que opinárom e contribuírom, especialmente às expertas em filologia pola sua paciência comigo. Se quadra justamente me acusárom de teimudo e nom sempre é fácil discutir com alguém que sabe menos que ti dumha matéria. Eu nom som filólogo nem linguista e simplesmente tenho a fortuna de poder viver e trabalhar sempre em galego; se algo me move é que dedico bastante tempo da minha jornada a refletir sobre o nosso idioma e aqui acabei por erguer umha tese, a qual quem mais sabe referendará ou rebaterá. A minha ideia é que temos umhas normas gerais claras sobre a colocaçom pronominal, válidas, e umhas exceções mui comumente ensinadas, tamém corretas, mas defendo que depois hai umha área menos definida na qual eu discutiria cousas. Na qual a ênfase e o sentido da frase e as palavras coas que começa a oraçom pode fazer dançar o pronome. No caso que exporei acabárom por dizer-me que era algo tam particular que nem tinha maior importância. Pode ser. Nom é o caso para mim. Quem bem me quer tamém me dixo, polo caso, que o falar velho nom se ajusta àlgumhas das minhas opiniões, que fago como algum corunhês (e.g. Cho digo eu; nom concordo) e que estou sob o influxo doutras falas, talvez da Lusofonia, talvez do espanhol. Nom tenho especial interesse em me afastar da língua dos bisavôs das terras de Jalhas e Soneira, mas a realidade é que a minha fala nom é exatamente a deles, começando já polo sotaque.

Em síntese eu o que queria era que nom caíssemos no recurso fácil de qualificar toda próclise como castelhanismo. Em definitivo em galego som igual de boas Vim para te levar que Vim para levar-te, mas em espanhol nunca se diria Vine para te llevar, senom unicamente Vine para llevarte. Agora, pode que eu esteja errado, olhai que umhas linhas supra acabei de escrever Se quadra justamente me acusárom de teimudo e provavelmente opinéis que a colocaçom correta é Se quadra justamente acusárom-me de teimudo. Porém se a frase vos passou desapercebida quando a lestes e nom vos destes conta... dá para pensar na questom em questom, nom sim?

Vamos coa frase que originou o debate:

Menos do1 5% da programación televisiva infantil emítese en galego

De a ter escrito eu, teria posto quase com certeza Menos do 5% da programación se emite en galego. Entom pugem-me a pensar por que. E figem esta pergunta, obtendo a resposta conjunta seguinte:

O pronome átono em galego

Conclusom, grosso modo umha de cada quatro persoas faria como eu. Por que motivo iríamos contra a maioria, que sim defende a norma geral de que o pronome vai despois do verbo? Houvo umhas poucas respostas que dam ideia da diversidade de percepções.

Todas concordaremos em que, se o verbo abrisse, nom haveria dúvida:
Emítese menos do 5% da programación televisiva infantil en galego

Concordaríamos tamém nestas exceções à regra geral?
se emite o 5% da programaçom infantil em galego. ver
Ainda se emite o 5% da programaçom infantil em galego. ver
Talvez se emite o 5% da programaçom infantil em galego. ver

(...) Aqui falta muito que debulhar (...)

Para finalizar e voltando à frase da programaçom infantil, esta reflexom:

Quanto à colocação pronominal, se lês textos galegos e portugueses medievais, era indiferente a próclise ou a ênclise em casos como esse, como é o caso até hoje no Brasil, países africanos e no galego espontâneo (como prova a tua dúvida). Em Portugal, por mudanças fonéticas (o fechamento das vogais, que leva a que me/te/se etc. se pronunciem quase que apenas com a consoante) passou a “obrigar”, por razões fonéticas, que o pronome se ligue ao verbo em casos como esse. Logo, em PT, nesse caso, só ênclise nesse caso específico mas próclise se houver antes palavra que permita que o pronome se apoie nela, como “que”, etc. Mas na Galiza (e BR, África, como no galego-português medieval), as partículas “me”, “se”, etc. não perdem a vogal na pronúncia, pelo que é indiferente colocá-las antes ou depois. Mas tanto a vossa RAG quanto os reintegracionistas ignoram que em PT medieval e em galego medieval as duas opções eram válidas (com o são até hoje no BR) e defendem copiar as colocações lusitanas do séc XX. Assim, em PT de hoje, nesse caso seria ênclise.


Marialva Garcinia

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1 Marialva Garcinia tamém me indicou que deve ser menos de x%: Isso de meter artigo antes de porcentagem é castelhano puro.