Pagar trinta euros por trinta páginas de Christophe Blain e sentir-se parvo é a mesma coisa. Nesta altura deveria saber que, longe de Hiram, Isaac, Socrate e Gus, me exponho a me sentir defraudado. No meu descargo alego que foi uma encomenda remota (improvisada e telefonicamente, adiciono) e que se trata de trinta páginas gloriosas… por muito que, ao igual que me aconteceu com En cuisine avec Alain Passard e Quai d'Orsay, a história em si não me interessa uma merda.

A mim que me desculpem mas este final de Donjon pareceu-me injustificavelmente gris e anodino. Sem chispa, sem humor, sem graça, e sem um nível gráfico que abraie. Recorrer ao “vamos salvar o universo” é o mesmo que faz Marvel em semanas alternas nas suas inaturáveis sagas cósmicas e isso aborrece às ovelhas. Um mal dia de Sfar e de Trondheim, ou uma época a meio gas, continua sendo melhor do que a maioria dos autores de BD podemos dar, mas isso nem justifica este feche à coleção senão que precisamente enfatiça a falta de inspiração que guiou o desenlace. E nem sequer gostei do labor de Alfred no penúltimo livro nem muito menos do de Mazan neste derradeiro, com o qual nem o desenho salvaria do tramo final.


Por suposto o balance global da trintena de álbumes continua sendo positivo, foi uma experiência fresca e entretida coroada por uma mão-cheia de momentos gloriosos. Além do bom labor feito polo tándem criador no argumento aqui tivemos o luxo de artistas como Christophe Blain ou Manu Larcenet, mas também de outros menos conhecidos que para mim o malharam, como Cristophe Gaultier.


Verdadeira epifania a que treze anos atrás me sobreveu no Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto ao maravilhar-me diante dos originais de Blain (“Le réducteur de vitesse”) e lá adquirir o meu primeiro Donjon: “La chemise de la nuit”, com desenhos del. Desde então já choveu. Sempre com a cor de Walter -que inspirou tendência- como marca da casa, a saga foi-se desenvolvendo por diversos cenários e eras cronológicas graças a uma pluralidade de colaboradores, e nessa miscelânea houvo trabalhos dos que não gostei em absoluto (o desenho de Boulet, a narrativa escolhida no álbum de Nine, ou o todo o álbum “Les profondeurs”, por dar uns exemplos) e muitos outros que me maravilharam, mesmo além do núcleo essencial de Zenith e Parade: o próprio Trondheim em “O cemitério dos dragões” e a maior parte de Crepúsculo, incluíndo o “Révolutions” recebido com divisão de opiniões mas que a mim me pareceu sobérbio.


Sei que algum dia relerei os álbumes de Donjon e gozarei de novo deles, mas também que ao final de novo lamentarei que Sfar e Trondheim não tenham passado o testemunho e que com eles morra o universo da masmorra, porque estou convencido de que haveria inúmeros criadores que poderiam dar-nos grandes histórias. Não sei se será a idade ou o estrelato que os fez distanciar-se a ambos de um projeto que no seu dia deveu de ser muito especial. Mas é um final triste. E não o digo como simples fã de Donjon. Porque não acredito nisso do compromiso dum criador com os seus leitores, e muito menos do autor consigo mesmo (afinal isso só é uma autocelebração do seu ego, coisa que me põe mauzinho), senão unicamente no compromiso dum autor com a sua obra, com o trabalho em si. Esse é o melhor jeito de ser honesto consigo mesmo como autor e de trabalhar otimamente para os leitores como audiência, paradoxalmente ignorado-os. Então se deixamos a um lado o status de estrelas mediáticas do que os dous criadores gozam no seu mercado, e as suas carreiras vizosas fora e dentro da BD, Donjon, como obra poliédrica, coletiva e cheia de humor e episódios fantásticos, merecia algo melhor que isto. Isto, que em certa medida foi como viver o Big Bang ao revês, uma implosão. Uma pena.

Comparo a emoção infinita que me provocaram as quatro primeiras séries nas que descobri a Christophe Blain com a leitura do seu cómic sobre a política e do seu cómic sobre a cozinha e deprimo-me.