Joann Sfar é literalmente um fora de série, nom o vamos descobrir agora. Depois de muitas leituras da sua obra este Aspirina surpreendeu-me enormemente porque me pareceu ao mesmo tempo umha mostra do seu enorme talento e versatilidade e umha novela gráfica horrível. A primeira metade é diretamente insofrível, nom sei o que pretendia mas os personagens som todos aborrecíveis e diretamente nom hai história. Na segunda dá um volantaço para a aventura colorista-terrorífica-pop sem complexos mas nem acaba de calhar. Ediçom ótima de Fulgencio Pimentel para um trabalho perfeitamente esquecível dum autoraço como hai poucos no continente.

P. D.


Claro que sí, guapi.

A mim que me desculpem mas este final de Donjon pareceu-me injustificavelmente gris e anodino. Sem chispa, sem humor, sem graça, e sem um nível gráfico que abraie. Recorrer ao “vamos salvar o universo” é o mesmo que faz Marvel em semanas alternas nas suas inaturáveis sagas cósmicas e isso aborrece às ovelhas. Um mal dia de Sfar e de Trondheim, ou uma época a meio gas, continua sendo melhor do que a maioria dos autores de BD podemos dar, mas isso nem justifica este feche à coleção senão que precisamente enfatiça a falta de inspiração que guiou o desenlace. E nem sequer gostei do labor de Alfred no penúltimo livro nem muito menos do de Mazan neste derradeiro, com o qual nem o desenho salvaria do tramo final.


Por suposto o balance global da trintena de álbumes continua sendo positivo, foi uma experiência fresca e entretida coroada por uma mão-cheia de momentos gloriosos. Além do bom labor feito polo tándem criador no argumento aqui tivemos o luxo de artistas como Christophe Blain ou Manu Larcenet, mas também de outros menos conhecidos que para mim o malharam, como Cristophe Gaultier.


Verdadeira epifania a que treze anos atrás me sobreveu no Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto ao maravilhar-me diante dos originais de Blain (“Le réducteur de vitesse”) e lá adquirir o meu primeiro Donjon: “La chemise de la nuit”, com desenhos del. Desde então já choveu. Sempre com a cor de Walter -que inspirou tendência- como marca da casa, a saga foi-se desenvolvendo por diversos cenários e eras cronológicas graças a uma pluralidade de colaboradores, e nessa miscelânea houvo trabalhos dos que não gostei em absoluto (o desenho de Boulet, a narrativa escolhida no álbum de Nine, ou o todo o álbum “Les profondeurs”, por dar uns exemplos) e muitos outros que me maravilharam, mesmo além do núcleo essencial de Zenith e Parade: o próprio Trondheim em “O cemitério dos dragões” e a maior parte de Crepúsculo, incluíndo o “Révolutions” recebido com divisão de opiniões mas que a mim me pareceu sobérbio.


Sei que algum dia relerei os álbumes de Donjon e gozarei de novo deles, mas também que ao final de novo lamentarei que Sfar e Trondheim não tenham passado o testemunho e que com eles morra o universo da masmorra, porque estou convencido de que haveria inúmeros criadores que poderiam dar-nos grandes histórias. Não sei se será a idade ou o estrelato que os fez distanciar-se a ambos de um projeto que no seu dia deveu de ser muito especial. Mas é um final triste. E não o digo como simples fã de Donjon. Porque não acredito nisso do compromiso dum criador com os seus leitores, e muito menos do autor consigo mesmo (afinal isso só é uma autocelebração do seu ego, coisa que me põe mauzinho), senão unicamente no compromiso dum autor com a sua obra, com o trabalho em si. Esse é o melhor jeito de ser honesto consigo mesmo como autor e de trabalhar otimamente para os leitores como audiência, paradoxalmente ignorado-os. Então se deixamos a um lado o status de estrelas mediáticas do que os dous criadores gozam no seu mercado, e as suas carreiras vizosas fora e dentro da BD, Donjon, como obra poliédrica, coletiva e cheia de humor e episódios fantásticos, merecia algo melhor que isto. Isto, que em certa medida foi como viver o Big Bang ao revês, uma implosão. Uma pena.