Nom podo afirmar nem supor que foi a melhor BD feita em Espanha o ano passado mas gostei. Mais, de feito, que os outros dous brugueriano/vazquianos a quem dei a ler (cuja frialdade na recepçom me surpreendeu).
Onde ia que eu queria pilhar este título, desde que saiu, e casualmente só agora que lhe dérom o Prémio Nacional conseguim. Da obra em si convencérom-me menos os insertos tipo documentário em que falam expertos/as na matéria que o relato delirante em si, ainda que entendo a decisom narrativa de empregar esse recurso.
Oxalá mais cousas de Sordo deste estilo proximamente.


Desfrutei muitíssimo da leitura e lamentei que a história acabasse. Adorei o trabalho de cenários e de desenho de personagens, como transmite a expressividade coletiva (os grupos e as massas) e individual (a linguagem corporal e facial) e tamém os diálogos sem concesom.
Em paralelo Isaac o pirata, a (para sempre inacabada?) saga criada por Christophe Blain, estivo todo o tempo na minha cabeça enquanto lia este álbum. Do seu autor, Frantz Duchazeau, penso que só lera, muitos anos atrás, Os cinco narradores de Bagdag, que tinha completamente esquecido, e Meteor Slim, de que gostei. Entom nom sei se é que ambos autores, Blain e Duchazeau, bebem das mesmas referências e agora a ambientaçom setecentista de El pintor forajido me levou de volta para Isaac mas o caso é que esta história tem algo de reverso escuro daquela outra odisseia dum pintor sob a bandeira da caveira. Neste caso o protagonista é outro artista das telas, desenganado da revoluçom que terminou co Ancien Régime. É um homem descontrolado que se revira contra tudo: a sua esposa, os seus colegas das belas artes, os revolucionários, os contra-revolucionários, o povo vítima dum período especialmente violento... A BD segue a sua trajetória num voo sem retorno, abanando entre a sua perícia coa espada e o seu talento co pincel, ancorado na militância da máxima da arte como um fim em si mesma.
Aborrecim a legendagem da ediçom espanhola, a tipografia (a da ediçom original tampouco a vejo muito melhor) e a sua composiçom, além do erro grosso das linhas sobreimpressas na vinheta terceira da página 12 (algo impróprio dumha ediçom profissional).
Nom obstante a beleza hipnótica dos cenários naturais e das ruínas, até dos sujos decorados urbanos, que Duchazeau retrata, junto co remoinho tam apaixonado como autodestrutivo do personagem principal, lográrom fascinar-me completamente e encher esse buraquinho que ficara por mor da desapariçom de Isaac.
Desejaria que Le Peintre hors-la-loi tivesse continuaçom como puro exercício de ficçom se for preciso, quer dizer até além da figura real em que leio que se baseia o argumento, Lazare Bruandet (1755-1804).
Um apontamento final: achei soberbo o trabalho de cor de Drac, comedido e acertado a partes iguais nos seus tons planos, e nom entendo como nom consta na capa do livro, umha omissom de crédito exterior imerecida tamém em bastantes outros casos que conheço da BD europeia.


A sensaçom que este título me deixou nom sei se se deve a que sobredimensionamos -por mor da sua hegemonia na cultura popular- o que acontece(u) nos EUA ou se simplesmente é que Chris Ware "fijo muito dano". Mas que se dedique, coa pulcritude gráfica e sentido da perfeita composiçom deste último, um livro extenso assim, a algo tam anedótico, para mim é totalmente excessivo. Suponho que, polo contrário, para o criador a queda dum meteorito em riba dumha senhora anónima -e o que seguiu- tem um simbolismo impressionante, que dá pé a retratar o insignificantes que somos perante a eternidade, etc. porém o álbum persoalmente nom me dixo nada e as suas repetições só me cansárom mais em cada iteraçom. Isso sim, o desenho, exquisito, a legendagem e a ediçom, perfeitas e a narraçom nom diria tanto mas bastante lograda. (Incidentalmente, nom sabia que havia clones de Ware).


Ambientaçom, personagens, argumento, diálogos, reviravoltas na trama... tem-no tudo. Nom vou estender-me na descriçom de Fóra de mapa, abrevio dizendo que é a minha BD galega favorita junto com A carreta do diaño de Fernando Llorente. Nom me lembro neste momento de nengumha obra, feita em qualquer tempo e de assinatura pátria -nem sequer das mais promocionadas polos meios-, que prefira a ambas.

Fóra de mapa é umha obra prima digna de estar publicada em numerosos idiomas, ganhadora dum concurso galego, é verdade, mas que devia ter muitíssimo mais reconhecimento. De ter sido lançada dum mercado poderoso como o francês com certeza teria um eco mais ajustado ao seu merecimento. Nom tem nada a invejar a multipremiados éxitos recentes como Pele de homem (eu de facto anteponho de longe o título de Emilio Fonseca).

Vid recensões de Eduardo Maroño, Fátima Ameijeiras, etc.


História, língua e aventuras (desventuras, mais bem) dam-se a mão nesta recriaçom da trajetória dumha mulher mui especial que viviu na era da conquista espanhola do atual México. Ainda que esta obra me tinha boa pinta proximei-me dela com certa reserva porque a maioria das que leio baseadas em feitos ou personagens reais nom me acabam convencendo. Porém realmente colmou todas as expetativas positivas que pudesse ter. Fora do que alguém de autoria local puder contar do seu ponto de vista (o que se quadra poderia assimilar-se ainda mais a umha "voz em primeira persoa") nom imagino melhor resultado por parte dumha assinatura europeia. Umha das cousas que mais acertadas me resultárom foi o ritmo da história, já que a autora mantém-lhe o pulso ao relato em todo momento. Ademais a estrutura do conto em base a episódios com distintas localizações e povos funciona perfeitamente. No apartado gráfico estamos perante umha criadora totalmente madura igualmente, capaz de levar a bom porto um livro de extensom considerável, por riba das duaszentas páginas, aliás a cor, sem que a qualidade mingue em nengum momento. Um reto, em conjunto, nom ao alcance de qualquer. Além de nom cair em excessivos maniqueísmos vê-se que se trata dum título do qual quem o criou se apaixonou, onde se lhe juntam interesses seus inteletuais e afetivos. Mui bom trabalho.


Kazuo Umezz (tamém latinizado Umezu) está considerado, disque, o maior autor de terror do manga. Eu só lim del os quatro primeiros volumes, de aparentemente seis que publicou Ponent Mon, de Aula a la deriva (漂流教室), que estava tam bem que era agotador de ler. Nem lembro por que nom completei a série, se quadra por isso. Hai mais títulos seus em espanhol. Esta é umha coleçom de histórias curtas em que destaca a fascinaçom do autor co horror dentro do matrimónio. Para quem nom conhecer Umezz este livro é um fantástico ponto de entrada e justifica sobradamente a fama que tem o criador octogenário.


Espetáculo circense digno dos trasnos de terceira de Inferno às ordens de Arcade. É verdade que já o reconhecem da parte autoral (ou editorial?) classificando-o explicitamente como eXploitation (décadas atrás teriam etiquetado como X-ploitation, com certeza) mas que cousa mais banal. Penso em como estas protagonistas na era Claremont tinham alma e agora parecem simplesmente estúpidas. Nom digo que haja que escrever os personagens como el, nem como o faria Morrisom na sua fase nem como Hickman na atual (cujo conceito de mutantes em mutantelândia me interessa zero) mas eu particularmente algo mais pediria.


Com Tillie Walden passa-me o que com quase nengumha assinatura na BD, a metade da sua obra aborreço-a e a outra adoro-a. Se nom esqueço nada lim -sempre traducidas para castelhano por La Cúpula- "El final del verano", "¿Me estás escuchando?", "En un rayo de sol" (vol. I) e "Piruetas". As duas primeiras resultárom-me pesadíssimas e de nulo interesse, enquanto que as duas últimas as achei fresquíssimas, persoais e memoráveis.
Estou vendo agora a cronologia por primeira vez e resulta que "Spinning" e "On a sunbeam" som de 2017-18, "The end of summer" de 2015 (debut, o qual justifica certas cousas) e -infelizmente- "Are you listening?" de 2020.
Para este ano a editora barcelonesa prepara um compilatório de histórias curtas de quando esta talentosa autora era (ainda mais!) nova.


Sempre me tem parecido difícil desenhar BD com um estilo "realista" (muito mais se "fotográfico") sem que o resultado se limite a aparentar um decalque e morra no estatismo do intento. O autor desta adaptaçom logra um estranho equilíbrio entre um jeito próximo disso e a fluidez que a narrativa sequencial requer: o encadeado polo qual os personagens som únicos frente aos demais, reconhecíveis entre vinhetas segundo as suas facções e constituiçom (para mais num relato como este, em que os corpos som tam presentes), a expressividade facial, junto à capacidade de síntese gráfica e o logro dum estilo global. O feito de que a técnica neste caso seja apenas lapis com cores planas (digitais?) por riba, chama-me muito a atençom. O desenho de personagens é sólido, tem muito de cânones cinematográficos e em certa maneira remite-nos a autores da velha escola como Bernet e outros. Ademais a estética à la Riviera francesa dos 50-60 está mui lograda. Em sumário, muitas cousas no desenho de Frédéric Rébéna para mim contam-se por atinos e nom comete os erros que temeria por mor do grafismo de partida.
O álbum, que argumentalmente explora o hedonismo dum tándem pai-filha a partir da novela homónima, conta a história que quer contar com um ritmo ajeitado. Como nom lim a obra primeira nom sei se no final aquela termina igual que esta BD, com umha frase-epílogo, um chocante punch line digno doutro género. Suponho que vem, como contraponto às lágrimas (de crocodilo?) precedentes, enfatizar a amoralidade de personagens aos que nom lhes falta de nada (salvo um pau polo lombo).
Editorialmente esta tendência atual pola qual se levam à nona arte tantos livros -mais ou menos conhecidos- nom sei se aporta algo substancial (além de fundo de catálogo para os grandes selos importadores como Norma ou Planeta), mas haverá que assumi-lo como parte da perene trasferência entre meios e do jogo artístico-comercial.


A NBA tem o seu jogo das estrelas e a BD galega tem de cote citas coletivas como esta em que se apresentam múltiples nomes que merecem seguimento. Infelizmente vários autores que tenho em ótima consideraçom nom me cumprirom expetativas nesta escolma. Por nomear alguns nom gostei do resultado gráfico da montagem de Debelius nem do uso de fotos filtradas de Dani Xove. Tamém esperava mais do próprio Manel Cráneo, que tem umha das histórias que menos convidam a ler-se de todo o volume, algo realmente infrequente num autor da sua solvência. Ainda que em geral nom gosto do desenho sem linha sim do que realizou Javi Montes -podia fazer duas décadas que nom via umha BD sua-, com um estilo bem riquinho ao que beneficiaria um tamanho de legendagem menor (nom digamos já se fosse a cor). Contudo talvez a antologia se ressinta no uso à vontade de tons de cinza, que várias vezes ficárom demasiado escuros ou empastados. Igualmente pode que tivesse ajudado a dar corpo ao conjunto certa harmonia tipográfica, por exemplo.
Nesta ocasiom Luís Sendón destaca sobre todos os demais, foi o que mais me convenceu, a sua história a que mais graça me fijo e a eleiçom do branco e negro puro um acerto total pola sua parte, além do bem desenhada que está. Um universo, o do francosatanismo, que esperamos revisite, num eventual segundo Arrepio ou em qualquer outro lado como no seu Altar Mutante.


Nom é por desprezar injustificadamente um título trabalhado tanto em termos gráficos como de guiom mas o duplo salto mortal que o argumento tenta na sua recta final nom lhe fai nengum favor, mesmo que tenha sido planeado desde o princípio... e estampa-se contra o chão. Persoalmente preferia qualquer alternativa das que o próprio argumento sugeria que fosse menos rebuscada porque no delírio final quase se passa involuntariamente do tétrico ao cómico.
Talvez nom ajuda que os personagens me resultem todos aborrecíveis por igual mas aí nom digo nada porque narrativamente me parece totalmente legítimo.


Em excesso deudora de Ghibli, a história nom me interessou demasiado e resultou tremendamente previsível mas este senhor (cujo nome agora escrevo sem diérese e sem traço, seguindo o seu próprio web) desenha com um estilaço e com umha classe inusuais. Um talento dos que hai poucos.

A única outra cousa sua que lim foi, em espanhol, Vencidos pero vivos, que logicamente se parece a isto como umha castanha a um ovo. Boa BD aquela, incidentalmente.


A maioria das biografias que leio em BD nom me dim nada, esta resultou-me simpática, ainda que se limita -e pode que por extensom nom colhesse muito mais- aos episódios mais icónicos e conhecidos da trajetória do célebre músico. Umha leitura agradável, ligeira e escrita e desenhada com graça. Para tratar-se dum personagem tam conhecido nom me parece pouco mérito lograr criar umha banda desenhada com personalidade.