O pior que lhe pode passar a um álbum de Corto Maltese é ficar correto mas sem chispa. Pode que isto seja o que encontrei neste título, um trabalho profissional, um bom produto comercial; pouco mais. Além de que o cenário é puro Berlin de Jason Lutes, só que este último o fijo muito melhor, claro está. Nem inventou esse teatro o americano, logicamente, está por caso o Berlín 1931 de Hernández Cava e Raúl para no-lo lembrar. Na cultura popular sempre se dá o risco de acabarmos em lugares comuns e o Berlim de entre-guerras é um deles. O Corto atual devia ficar fora deles se se quer render homenagem ao legado de Hugo Pratt. É um ícone da BD europeia e isso é o menos que se lhe exige. Está a passar-lhe algo similar a Astérix. Títulos de fatura impecável mas faltos do suficiente espírito, polo menos para mim como leitor de velho. Talvez para os rapazes que os estejam descobrindo agora sejam melhores que tal como eu os leio; oxalá.

PS. Imperdoável gralha ortográfica na capa do livro: o correto em espanhol é Nocturno berlinés, com bê minúsculo.


Adorei. Quer dizer, aborrecim. Do ponto de vista humano a explotaçom laboral e os maus-tratos emocionais que mulheres como as protagonistas sofrem no cenário verídico da Coreia do Sul contemporânea som terríveis. O alcoolismo, os abusos económicos e psicológicos dentro dos casais -embora temporários-, tudo isso. Com que gostei refiro-me ao bom tandem que a mãe do autor como cronista/argumentista e el como criador desta BD conseguirom. É realmente um ótimo trabalho, do melhor que levo visto no ano, um em que as evidentes limitações gráficas (um estilo como amateur, feio, que é mui comum nas novelas gráficas atuais) do assinante acabam carecendo de importância quando a história e os personagens têm tanto a dizer, sem suavizar os retratos em nengum momento, aportando sempre a expressividade ou a pausa precisa, cumprindo sobradamente coa narraçom, co ritmo da história.


Nom podo afirmar nem supor que foi a melhor BD feita em Espanha o ano passado mas gostei. Mais, de feito, que os outros dous brugueriano/vazquianos a quem dei a ler (cuja frialdade na recepçom me surpreendeu).
Onde ia que eu queria pilhar este título, desde que saiu, e casualmente só agora que lhe dérom o Prémio Nacional conseguim. Da obra em si convencérom-me menos os insertos tipo documentário em que falam expertos/as na matéria que o relato delirante em si, ainda que entendo a decisom narrativa de empregar esse recurso.
Oxalá mais cousas de Sordo deste estilo proximamente.


Desfrutei muitíssimo da leitura e lamentei que a história acabasse. Adorei o trabalho de cenários e de desenho de personagens, como transmite a expressividade coletiva (os grupos e as massas) e individual (a linguagem corporal e facial) e tamém os diálogos sem concesom.
Em paralelo Isaac o pirata, a (para sempre inacabada?) saga criada por Christophe Blain, estivo todo o tempo na minha cabeça enquanto lia este álbum. Do seu autor, Frantz Duchazeau, penso que só lera, muitos anos atrás, Os cinco narradores de Bagdag, que tinha completamente esquecido, e Meteor Slim, de que gostei. Entom nom sei se é que ambos autores, Blain e Duchazeau, bebem das mesmas referências e agora a ambientaçom setecentista de El pintor forajido me levou de volta para Isaac mas o caso é que esta história tem algo de reverso escuro daquela outra odisseia dum pintor sob a bandeira da caveira. Neste caso o protagonista é outro artista das telas, desenganado da revoluçom que terminou co Ancien Régime. É um homem descontrolado que se revira contra tudo: a sua esposa, os seus colegas das belas artes, os revolucionários, os contra-revolucionários, o povo vítima dum período especialmente violento... A BD segue a sua trajetória num voo sem retorno, abanando entre a sua perícia coa espada e o seu talento co pincel, ancorado na militância da máxima da arte como um fim em si mesma.
Aborrecim a legendagem da ediçom espanhola, a tipografia (a da ediçom original tampouco a vejo muito melhor) e a sua composiçom, além do erro grosso das linhas sobreimpressas na vinheta terceira da página 12 (algo impróprio dumha ediçom profissional).
Nom obstante a beleza hipnótica dos cenários naturais e das ruínas, até dos sujos decorados urbanos, que Duchazeau retrata, junto co remoinho tam apaixonado como autodestrutivo do personagem principal, lográrom fascinar-me completamente e encher esse buraquinho que ficara por mor da desapariçom de Isaac.
Desejaria que Le Peintre hors-la-loi tivesse continuaçom como puro exercício de ficçom se for preciso, quer dizer até além da figura real em que leio que se baseia o argumento, Lazare Bruandet (1755-1804).
Um apontamento final: achei soberbo o trabalho de cor de Drac, comedido e acertado a partes iguais nos seus tons planos, e nom entendo como nom consta na capa do livro, umha omissom de crédito exterior imerecida tamém em bastantes outros casos que conheço da BD europeia.


A sensaçom que este título me deixou nom sei se se deve a que sobredimensionamos -por mor da sua hegemonia na cultura popular- o que acontece(u) nos EUA ou se simplesmente é que Chris Ware "fijo muito dano". Mas que se dedique, coa pulcritude gráfica e sentido da perfeita composiçom deste último, um livro extenso assim, a algo tam anedótico, para mim é totalmente excessivo. Suponho que, polo contrário, para o criador a queda dum meteorito em riba dumha senhora anónima -e o que seguiu- tem um simbolismo impressionante, que dá pé a retratar o insignificantes que somos perante a eternidade, etc. porém o álbum persoalmente nom me dixo nada e as suas repetições só me cansárom mais em cada iteraçom. Isso sim, o desenho, exquisito, a legendagem e a ediçom, perfeitas e a narraçom nom diria tanto mas bastante lograda. (Incidentalmente, nom sabia que havia clones de Ware).


Ambientaçom, personagens, argumento, diálogos, reviravoltas na trama... tem-no tudo. Nom vou estender-me na descriçom de Fóra de mapa, abrevio dizendo que é a minha BD galega favorita junto com A carreta do diaño de Fernando Llorente. Nom me lembro neste momento de nengumha obra, feita em qualquer tempo e de assinatura pátria -nem sequer das mais promocionadas polos meios-, que prefira a ambas.

Fóra de mapa é umha obra prima digna de estar publicada em numerosos idiomas, ganhadora dum concurso galego, é verdade, mas que devia ter muitíssimo mais reconhecimento. De ter sido lançada dum mercado poderoso como o francês com certeza teria um eco mais ajustado ao seu merecimento. Nom tem nada a invejar a multipremiados éxitos recentes como Pele de homem (eu de facto anteponho de longe o título de Emilio Fonseca).

Vid recensões de Eduardo Maroño, Fátima Ameijeiras, etc.