Fantástica a notícia de Estaleiro Editora se estrear na BD, e mais se é com um título do neozelandês Dylan Horrocks. O volume, de 164 páginas em branco e negro, compom-se de várias histórias curtas de distinta onda, mas que servem por igual para se aproximar a um criador dotado coa capacidade de encher de vida e lirismo os seus relatos.


Se me atenho à minha limitada experiência leitora das suas obras mais persoais essa fragmentaçom parece ser a bençom mas tamém o sino da sua trajetória, pois numha década só tivem ocasiom de ler-lhe umha novela gráfica completa. Porém o artista logra que empatizemos cos protagonistas dos seus contos aínda que os conheçamos fugazmente, o que sumado à sua linda arte justifica sobradamente a adquisiçom deste volume -umha ediçom curiosa- e o seguimento do seu nome.


E é o seguimento do seu nome o que me levou persoalmente a este “Cómics desde Hicksville” depois de várias etapas que, se nom vos molesta, vos contarei em primeira persoa. Alá a primeiros de 2003 o coletivo Polaqia estava fraguando o cerne do elenco que lhe daria o seu ser durante os seus restantes (quase) dez anos mais, coa incorporaçom de Diego Blanco, Brais Rodríguez, Roque Romero junto cos irmãos Hugo e Sergio Covelo. Eles se vinham a unir a Bernal, Rubín e a mim como membros fundadores do coletivo autoral/editorial o ano anterior. Bernal, Diego, Brais e Roque partilhavam casa estudando Belas Artes em Ponte Vedra e aínda que eu era como sempre um leitor voraz a bedeteca que tinham ali permitiu-me descobrir mais de um autor (de Bernal um nunca deixa de aprender). Emprestárom-me um exemplar de “Hicksville” o galardoado álbum do autor que nos ocupa, que o nosso amigo madrileno Ricardo Mena tivera a bem editar em espanhol recentemente. Gostei do trabalho e memorizei o nome. Embora certos pontos do livro acho nom me convenceram, era umha dessas BDs que ficam na memória, feita com um amor máximo -e explícito- polo próprio meio. Havia… nom sei como explicá-lo, umha sintonia entre o que aquel autor -nascido em 1966- fazia e o que nós -de menos idade-; nom comparo a qualidade, nem sequer o gênero, mas sim a atitude para o meio e para a obra própria.


Salto a 2009. Na altura eu já nom dirigia a antologia Barsowia, mas continuava a captar autores de qualquer procedência geográfica que me parecesse mereciam e aportavam à cabeceira. Nom sei como um dia de aquel ano -o mesmo em que deixei o grupo- me dei conta do longo tempo que passara sem saber de Horrocks e contatei-no. A resposta foi amável e totalmente proclive à colaboraçom, eu propuxem-lhe começarmos a publicar seriadamente em galego “Sam Zabel e a pluma mágica”. Para que vos fagais umha ideia entom el levava 32 páginas feitas do projeto e a data de hoje alcançou já as 141. Comecei a traduzir as pranchas e assim foi como Horrocks foi autor do Barsowia na etapa postreira desta. “A pluma” viu o seu primeiro capítulo publicado no Barsowia nº14, o segundo no nº15 (traduzido por Brais com revisom de Urbanoscar e minha) e no derradeiro número da antologia, o 16, a peça, já escolhida polos polaqos, foi “Cornucópia”.


E curiosamente é “Cornucópia” a que nos leva de volta ao volume de Estaleiro, pois é esta a história que o abre, adiantando, aos que acabaram de chegar, as virtudes do criador: um manto calmo, a contemplaçom e a celebraçom da beleza, umha sensaçom mágica mas familiar, mulheres das que se namorar, lugares imaginados e porém tam ou mais reais… “O meu mundo” explora esta última premisa, “Siso” redunda na dicotomia e apresenta umhas lâminas nas que se representa en distintas encarnações o que provavelmente seja um ideal feminino do autor, presente tamém nas suas mui sui generis “Bíblias de Tijuana” -em realidade, três capítulos dumha trama singela- nas que se referenda outro dos pontos fortes de Horrocks: a representaçom do sexo (mesmo explícito) sem cair em clichés do porno. Para fechar o tomo, a parte mais longa, “A última história da fox”, transmite ao reproduzir-se enquadrada em negro toda, a sensaçom dum fanzine (minicomics, chamam-lhe no mundo anglosaxom, o que provavelmente seja mais certeiro) exposto num centro de arte contemporânea. Trata-se dumha história autobiográfica onde, em clave autocrítica por parte do autor, talvez encontremos resposta a essa bençom/sino que comentava antes. Esteticamente é um material distinto, por anterior mas tamém por abosquejado e ‘espontáneo’ mas que funciona optimamente em termos narrativos.


Todas as histórias do livro estám no site do autor baixo licença Creative Commons BY-NC, em quanto entendo que o livro da Estaleiro se encontra baixo BY-NC-SA. Autores e editores do tempo atual, em todo caso, num feliz encontro que confiamos nos aporte proximamente mais novidades.


Polo momento, só me resta dar os parabéns a todas as implicadas na iniciativa e desejar-lhes o maior dos sucessos.